O TRUCO de Evaristo Carriego - (1930)

(...) Observo os jogadores de truco. Estão como escondidos no ruído crioulo do diálogo; querem espantar a vida a gritos. Quarenta cartas – amuletos de papelão pintado, mitologia barata, exorcismos – lhes bastam para conjurar o viver comum. Jogam de costas para as transitadas horas do mundo. A pública e urgente realidade em que estamos todos chega às fronteiras dessa reunião e não passa; o recinto de sua mesa é outro país. Povoam-no o truco e o aceito, a perfumada cruzada e o que ela trará inesperadamente, o ávido folhetim de cada partida, o 7 de ouros tilintando esperança e outras apaixonadas bagatelas de repertório. Os truqueiros vivem esse alucinado mundinho. (...)

Alguns versos e poemas para você divertir-se com seus amigos:


Nessa bela estrada, 
passa boi, 
passa boiada,
e eu que não sou burro nem nada,
chamo uma flor e canto um truco pra gurizada.

Subi no coqueiro caí de costas,
eu TRUCO essas bostas.

Siriema é bicho feio, tem cabelo no joelho,
TRUCO no meio.

Minhoca não tem osso,
banana não tem caroço,
TRUCO seu moço.

Quem não pode não pergunta,
carrapato não tem junta.

Subi no muro e caí de costas,
eu TRUCÔ seus cocô!

Saracura bicho feio TRUCO no meio.

TRUCO pra frente,
pra trás não tem gente!

Alô Sampaio,
canto minha FLOR e saio!

TRUCO que cai,
TRUCO não sei,
cai no TRUCO seu gay.

Vim de Pernambuco muntado num burro chucro,
pra você seu pato eu chamo TRUCO.

Butiquim toma pinga com limão,
vou dizer pra você que estou com uma FLOR na mão.

Quem refresca cu de pato é lagoa! Toma TRUCO baroa!

Lugar de cagão é no colonhão! TRUCO LADRÃO!

A minha mulher eu quero,
O meu filho educo,
E, a você companheiro,
QUERO e RETRUCO.

Atirei uma pedra,
Por cima da Vacaria,
Deu no cravo,
Deu na rosa,
Deu na FLOR que eu queria!

Eu tinha uma vaquinha,
Que se arrastava de pança,
Dava 33 litros de leite,
E era FLOR de vaca mansa.

Fui para Buenos Aires,
Num barquinho a vapor,
Na ida eu gritava TRUCO,
E na volta eu gritava FLOR.

Dei a volta no Brasil,
Fui até o Pernambuco,
Na ida colhi a FLOR,
Na volta gritava TRUCO.

Eu tinha um cumpadre meu,
Que comia minha madrinha,
A desgraçada falava:
'- Que FLOR de pau que ele tinha!''

Trupicar não é cair,
São voltas que o corpo dá,
Por isso nasceu roxa,
A FLOR do maracujá.

Esta noite dormi fora,
E esqueci do cobertor,
Uma roseira cheia de rosas,
Me cobriu toda de FLOR.

No jardim do amor,
entre grande e pequenas
a ave canta suas penas
e eu canto minha FLOR

Sou de (Sua cidade)
mas joguei muito no interior,
não saio dessa mesa
sem cantar a minha FLOR

Eu também nasci no pampa
onde mora o meu amor
a você, meu companheiro
peço, Contra-Flor

Para o amor sou atrevido
e bravo como às de espada
mas nunca digo ENVIDO
expondo a jogada

Sinto um Vento lá de fora,
canto Flor e vou-me embora.

Eu vinha de Santiago,
juntinho com meu amor,
parei na beira da estrada,
pra colher um ramo de Flor.

Para pintar a minha china
não há pincéis nem pintor,
nem flores nos jardins
comparadas com minha Flor.

Como eu gosto de florear o canto,
floreado sempre cantei.
De tanto cantar floreando,
cantor de Flor me tornei.

Debaixo de um salso verde
havia um capincho aninhado
fumando um cigarro de palha
e lendo um certificado
o certificado dizia
tenho Flor meu cunhado.

Eu nasci no Ceará
me criei em Pernanbuco
mas foi em Flor da Serra
que aprendi a jogar Truco.

Flor não é floreio!
Peço Truco e jineteio!

Se me negou a cheirosa,
O ponto ainda não tá perdido,
E antes que tu ganhe o tirão,
le vou chamar a Falta Envido.

Gaúcho pra sê bem bom,
precisa quatro sabê.
Tocá vióla, jogá Truco,
namorá e sabe lê.

Se vier merda pro pé,
eu Truco essa bosta.

Como um bêbado palhaço,
e com a mão na escova de aço,
eu Truco este maço.

Jogar isso é muito fácil,
principalmente com freguês,
agora eu grito Truco,
e quero ver quem vai pro três.

Lá em cima daquele morro,
passa boi passa boiada,
então eu peço Truco,
pra continuar essa jogada!

Outro dia eu jogava
com o velho Salvador.
Volta a volta ele Envido e Truco.
Poxa, mas que velho ligador!

Fui nascido na cidade,
criado no interior,
não saio da minha casa,
sem levar a minha FLOR